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sábado, junho 23, 2007

Às vezes eu me sinto vazia,
Sem poesia
Sem sentimentos
Sem pensamentos
Sem sonhos
Um grande pedaço de nada.

E eu paro e tento pensar, criar, viajar, amar em vão
Por que a grande verdade é que o que eu quero é ser
Eu quero viver, conhecer, ter e pertencer.

Quero sentir o o cheiro dos pensamentos,
O gosto das palavras e o som dos sonhos.

Mas quando procuro não há nada,
Só o frio, o escuro, o feio,
Promiscuidades e obscenidades
Insistem em querer ser mais que eu que não sou
mas luto contra elas, nego-lhes seu direito de existir.


E o que resta são o vácuo e a casca.

domingo, julho 30, 2006

O velho do espelho

Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto...é cada vez menos estranho...
Meu Deus, Meu Deus...Parece
Meu velho pai - que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar - duro - interroga:
"O que fizeste de mim?!"
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga...Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste...

Mário Quintana

terça-feira, abril 25, 2006

Antes, a serra do Curral,
A vista que me acordava e dizia:
Bom Dia!
E eu, sonolenta, me escondia.
Colcha, cobertor, cortina
Peneirando a luz que quer entrar.

Hoje, só um ceu cinza e um prédio.

Será por isso que acordo de mau-humor?

terça-feira, novembro 15, 2005

Vinícius...

Um bêbado e devasso, apaixonado pela vida, sempre em busca da felicidade... Um poeta erudito e desbocado. Branco que queria ser negro. Homem de muitas mulheres, ainda que uma de cada vez. Gostava de gente, detestava a solidão. Mas seu melhor amigo era o whisky, o "cachorro em garrafado", como dizia. Ria, gargalhava, balançava o corpo todo, menos o pé onde repousava o copo...

Depois de ver Vinícius, eu me sinto ainda mais sem palavras que o normal, incapaz de organizar meus sentimentos. Um documentário pouco ortodoxo, com entrevistas em clima de buteco, música e poesias recitadas. Não é um estudo minucioso de cada passo da vida do "poetinha", mas um relato cheio de sentimento. Os entrevistados se emocionam, contam casos, cantam...
E eu, fiquei aqui assim, com um milhão de sentimentos à flor da pele. Eu não vi o filme, senti. Assisti com os olhos da alma e do coração. Não sei relatar tudo o que aconteceu, só que o que eu senti, os arrepios e o sorriso que não consegui conter ao reconhecer poemas que eu sabia recitar de cor há muito tempo...

Eu sou o Tom do Vinícius...


Chico Buarque contando ao Toquinho e mais alguém de cujo nome agora não me recordo, de quando fez a seguinte pergunta:
"Vinícius, você acredita em reencarnação?"
"..."
"Mas se você pudesse voltar, como ia querer ser?"
"Ah, assim mesmo, só com o pinto um pouquinho maior."
Todos caem na gargalhada e Toquinho diz "Eu não sabia disso!"

quarta-feira, setembro 28, 2005

"Caminhozinho por onde eu ia andando
E de repente te sumiste,
- o que seria que te aconteceu?
Eu sei ... o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
Que a de um caminho que se perdeu..."
(Mario Quintana)

quinta-feira, maio 05, 2005

A Bailarina


Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.

Não conhece nem lá nem si
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças
e também quer dormir, como as outras crianças.


(Cecília Meirelles)

domingo, abril 17, 2005

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua)

No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

Eu e minhas fases! Se eu pelo menos conseguisse encontrar o tal calendário desse astrólogo, talvez minha vida fosse bem mais fácil...

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